Estórias de Trancoso

Estes dias recebi um “mail” do Daniel Cordeiro, que levou minhas crônicas para o avô ler em Serra Talhada. O avô dele é escritor, historiador e professor. Fiquei extremamente feliz com ao acontecido, porém no fim do “mail” o Daniel me diz que, segundo seu avô minhas crônicas são estórias de trancoso. Fiquei com uma pulga atrás da orelha porque sabia que no meu tempo de escola, estórias de trancoso eram estórias mentirosas. Resolvi pesquisar e passei uma semana em fornado, coloquei no Google e encontrei farto material para desvendar, sendo fabulas, lendas, contos irreais. Encontrei ainda que em 1575 Gonçalo Fernandes Troncoso escreveu um livro de contos e histórias de proveito ou de exemplo e esse termo trancoso chegou até nossos dias sobre contos fabulosos. Porém, Daniel, não concordo com o nome escritor, seu avô mais adorei a forma elogiosa que ele se refere a mim. Hoje eu vou contar a história de Lia, neta de Dona Margarida. Lia foi criada com a vó no sertão do Pajeú num distritozinho de nada e eu conheci Lia no bar do Zenga e ficamos conversando até de madrugadinha. Quando ela chegou toda risonha eu estava esperando alguns criadores de Quarto de Milha para receber o dinheiro dos registros que havia feito durante o dia. Tinha rodado mais de 600 km, estava cansado, recostado na mesa, tomando um uisquinho que ninguém é de ferro, quando ela chegou dizendo: - O senhor não é daqui não, não é? – Sou não senhora. – Tá aqui passeando? – Não, estou trabalhando. Deu meia volta e foi conversar com outros fregueses. Meus clientes chegaram, brincaram com ela e sentaram na minha mesa, acertaram as contas, quando eu perguntei: - Quem é essa? – Oxente é Lia gente boa demais. – Ela é muito curiosa. – É não, doutor, é o jeito dela mesmo. – Todo mundo conhece ela aqui no bar, afirmei. – Doutor acho que Lia tirou a donzelice de todo mundo aqui na mesa. Foi uma risadagem geral dos quatro amigos como uma anuência Foram todos embora e eu fiquei mais um pouco para tomar a saideira e ir para o hotel dormir quando Lia se aproximou e perguntou: - Posso me sentar? –Claro, fique a vontade. Ela sentou e começou a matraquear. – O doutor fica só me observando de longe, não é? – É, Lia, é o meu jeito. – E o senhor trabalha com cavalo? – É isso mesmo. – Ah! Que bom. Eu acho cavalo um bicho bonito. – É verdade, respondi. E a senhora está neste serviço a muito tempo? – Desde menina. Mais o senhor não está curioso para saber como eu perdi a virgindade não, não é? – Ixe, eu não. E ela continuou: - Quando eu era menina ficava na janela na casa da minha vó vendo as mulheres passarem para irem à igreja com véu e grinalda quase todos os dias. Um dia vinha um bando de mulheres cheias de pulseiras, colares, roupas coloridas tudo com batom nos lábios falando alto pela rua e eu adorei aquilo. Era o oposto do que eu estava acostumada a ver, chamei minha vó e perguntei quem eram aquelas moças e ela me respondeu que eram moças de conduta duvidosa, que trabalhavam no cabaré de Malaquias. Passaram-se alguns meses e um dia minha vó estava sentada numa cadeira e eu no meio das pernas dela e ela catando piolhos nos meus cabelos com um pente bem fino e me perguntou: - Minha fia quando você crescer vai ser o que, doutora, professora, comerciaria, advogada, o que minha fia vai querer ser? De primeira sem pestanejar respondi: - Ôh vó, quero ser isso não, vou ser é puta feito aquelas moças que passaram por aqui. Decidi naquele dia e tô até hoje no serviço. Olhei pra Lia sem nem um tipo de preconceito ou pena e bem no fundo daqueles olhos vivos e tristes tinham uma mulher cheia de estórias com humor extraordinário de valor inestimável.