Conflito de Gerações

Lutércio andava preocupado com o filho adolescente de dezoito anos, porque o menino, como ele mesmo falava, vivia entocado dentro do quarto, ou jogando “vídeo game” ou sentado na frente do computador jogando “counter stricker”. Lutércio já havia conversado com dona Sarah, a esposa, demonstrando sua preocupação: - Oh, Sarah! Tu não achas que o Cauã é muito quieto, não? – Deixa disso, Lutércio. Bota as mãos para o céu, o Cauã é um menino bom, saudável. É só um pouco calado. – Ora, Sarah é calado demais para meu gosto. Não vejo esse menino falar de mulher, ninguém telefona para ele e os amigos que aparecem são esquisitos demais. – É o jeito dele Lutércio, disse dona Sarah, dando por terminada a conversa. E esse tipo de conversa era a mesma quase toda semana. Um dia, seu Lutércio resolveu conversar com um amigo do escritório, o Walter, demonstrando sua preocupação com o Cauã: Te aperreia não compadre Lutércio, esses meninos de hoje são tudo assim. – Mas hôme na idade dele eu ia para aula, jogava pelada de tarde e ainda batia duas bronhas por dia. – Eita compadre isso é que era tempo bom. Não era? – Mas os meninos de hoje compadre são mais maduros, mais esclarecidos, a internet ensina tudo a esses meninos. – Compadre Walter hoje tá tudo diferente. No tempo da gente nós olhávamos figurinhas de mulheres peladas e revistas no banheiro quando íamos tomar banho ou à noite quando íamos dormir e depois colocávamos embaixo do colchão. – Hoje, se o cabra, for ver mulher pelada na internet, tá na pornografia, e é só o que tem. – É mesmo compadre e é capaz de dar confusão se disser que coleciona mulher pelada no computador. - É mesmo compadre, hoje em dia tenho até medo de dizer que heterossexual, pois pode aparecer algum grupo dizendo que sou preconceituoso. – É mesmo, compadre. Deixa isso para lá. O menino tem namorada? – Tem uma mocinha que vive trancada com ele lá no quarto. – Poxa vida, compadre, já é meio caminho andado, pelo menos o menino gosta de mulher. – Então, compadre, porque ele não se anima, não sai de casa, não faz farra feito todo mundo? – Não sei, compadre Lutércio, é o jeito dele. Se despediram e foi cada um para seu lado. Lutércio chega em casa perto das dez horas, entra, coloca o paletó no cabide, dá um beijo em dona Sarah que assiste a televisão e pergunta pelo Cauã: ‘’- Tá lá no quarto no computador. Ele então se dirige até o quarto, bate na porta e entra. Estava Cauã na frente do computador, com fone de ouvido, falando com outra pessoa do outro lado: - Boa noite, Cauã. Ele olha para o pai completamente absorvido com a conversa que nem sorri para o Lutércio que fica ali parado. Após alguns segundos, levanta os olhos e fala com o pai: - Oi, pai. Tudo bem? – Tudo. O que é que estás fazendo? – Nada não, estou com meus amigos jogando. – E a namorada, como vai? – Pai, ela é minha amiga, não é minha namorada. – Mas tu já pegasses ela, não já? – Pai, por favor, as coisas não são do jeito que o senhor acha que são. – E são de que jeito? – O senhor quer mesmo saber? – É o que mais quero: - Primeiro nós fumamos um baseado de maconha, comemos tudo que tiver na geladeira, ficamos na internet curtindo alguns jogos coletivos e mais tarde, quando vocês estão dormindo, nos reunimos com os Black Blocs pra quebrar alguns bancos em protestos urbanos. Lutércio saiu do quarto do Cauã cabisbaixo, chegou junto de dona Sarah e disse: - Sarah... Sarah... Sarah... Esse menino da gente é problemático.