Verões inesquecíveis

Logo depois das festas do Natal e das crianças que fizemos no Hospital rumamos para a praia de Pitimbu para uns quinze dias de merecido descanso. Nestes exercícios de vadiagem podemos conversar, dormir, namorar, discutir e fazer planejamentos para 2015 como qualquer pessoa normal. Eu, na praia, (que não é minha praia) fico de agonia já que não sou muito de mar, banho de água salgada comer muito peixe, vizinho com som alto e mulheres curiosas, principalmente quando estou com Fernanda e Pedro. Mas, graças a Deus foi ótimo, descansei e cheguei renovado, tão renovado que vim logo escrever uma crônica de verão. Na década de setenta não havia tanta facilidade com as meninas como se tem hoje. Para um cara tirar a donzelice ou ia para um cabaré com os amigos ou namorava com as empregadas de casa ou da casa dos outros. Nesta época eu tinha um conhecido chamado Tadeu que me convidou para almoçar na casa dele. Eu sabia pela fama que o pai dele era bravo feito à peste e todo mundo que ia lá tinha que ouvir um discurso do velho sobre suas regras. Ao chegar fui apresentado a todos e o velho foi logo dizendo: Olhe meu filho aqui não se anda sem camisa, não se fica conversando besteiras com as minhas filhas nem se fica olhando para as penas de ninguém se não o pau canta. Fez todo o blablabá que eu já tinha ouvido falar. Quando cheguei na mesa que sentei tomei um susto daqueles grandes, Lourdinha estava lá servindo toda risonha e oferecida. Eu, que comia Lurdinha quase toda noite não sabia que ela trabalhava na casa de Tadeu, mas, relaxei e fui em frente, comi sobremesa paquerei com as irmãs de Tadeu e de vez em quando olhava para a bunda Lourdinha quando ela acabava de me servir e dava as costas, contrariando todo o discurso que o velho tinha feito. Nesta época veraneávamos em Piedade que hoje é uma praia urbana mas, naquela época era quase tudo deserto a pista só ia até a Igreja de Piedade a Igreja velha. Ficávamos Dezembro e Janeiro na praia. Lembro-me que no dia 8 de Dezembro dia de Nossa Senhora da Conceição à noite chegavam vários ônibus para saudar Iemanjá lá em Piedade com oferendas e batuques. Eu adorava ver aquelas mulheres dançarem todas de branco girando no circulo ao som dos atabaques. Neste dia eu estava por ali de bobeira esperando que aparecesse alguém quando vi na beira do mar estava rolando a maior festa do candomblé. Segui até onde estavam os ônibus e notei que todos os sapatos ficavam amontoados ao pé da porta dentro de um cesto. Não tive duvidas peguei um pé de cada sapato e joguei no terraço da casa do pai de Tadeu que ficava bem na esquina junto do terreno onde pararam os ônibus. Quando terminou as oferendas todo aquele pessoal só estavam encontrando um pé de cada sapato e tava todo mundo bravo feito à peste. Tinha um tal de Tião, que era um negrão de quase dois metros que tocava atabaque que estava tão bravo que salivava pelo canto da boca de tanta raiva. Eu que estava sentado no muro olhando todo o movimento disse-lhe: Meu compadre eu vi um cabra pegando os sapatos e levando para este terraço aqui, mas não sabia o que era fiquei na minha. O negrão de um pulo só saltou o muro, chegou ao terraço, e começou a apanhar os sapatos quando abre a porta o pai de Tadeu armado e brabo feito um guará. Esse tal de Tião botou a mão no cano do revolver tomou-o do brabo e disse: - Tá conversando merda rapaz fica quieto pra não apanhar. Naquela situação de desespero Tião pegou todos os sapatos acabando o reboliço. Eu meio matreiro fui embora pra casa. No outro dia pela manhã na praia o comentário era que o pai de Tadeu tinha dado tiro em gente e que tinha botado o povo do candomblé embora corrido. De noite conversando com Lourdinha e Marluce eu soube que o veio havia se mijado e se borrado quando o Tião tomou-lhe o revolver e quando entrou em casa pra tomar banho e tirar o pijama cagado dizia soluçando: - Como é que aqueles sapatos foram parar no meu terraço? Ai meu Deus que desmoralização. Eita verão inesquecível.