O Mijão

Sempre tive uma tendência de gostar de fracos e oprimidos e sempre me meto em confusão por causa disso. Quando entrei na Universidade Rural em 1976, a ditadura era de lascar, todo mundo tinha medo de tudo. A ditadura havia criado um sistema de ensino que você só convivia com a sua turma no primeiro período, depois todos se dispersavam e se chama sistema de crédito. Eu paguei (por isso se chamava de crédito) a disciplina de genética com um professor que tinha chegado de fora, do doutorado, chamado Gotardo Marcon, excelente professor por sinal. Minha turma adorava a aula e lá havia um aluno chamado Severino que me procurou dizendo que não conseguia entender nada sobre genética. Eu achava uma coisa esdrúxula, alguém não entender genética então resolvi ajuda-lo. Passava manhãs ajudando Severino a aprender genética. Neste ínterim, participava do Diretório Acadêmico de Zootecnia eu, Lúcia Feldhes, filha de um ex-padre, birrenta, brigona uma rebelde perfeita e o outros colegas, discutíamos política, alfabetização de adultos pelo método de Paulo Freire, jogávamos totó, dominó e fazíamos tudo na clandestinidade da política ao jogo . “Neste período a Rural de Pernambuco fez a primeira greve, pós – ditadura e após ser decretada fomos trabalhar, escrever faixas e pintar os muros externos da Rural com: “Abaixo a Ditadura”, “Fora Militares”, Fora Ernesto Geisel, Che está vivo,” na verdade, todo chavão Comunista da época. No outro dia pela manhã a Universidade estava cercada pelo exército. O companheiro Pedro Laurentino presidente do DCE, gritava da arquibancada na frente do prédio da reitoria: ... “Não se preocupem que eles não vão entrar na rural.” O reitor não vai permitir isso. Ledo engano, depois de algumas horas a marcha foi inevitável, sem dialogo, sem conversa, já foram já entrando, batendo, jogando bombas de efeito moral e como a experiência de todo mundo era fraca, o pânico foi geral(como éramos bobos em acreditar em tudo que falavam) e eu como sempre peguei o caminho errado. Subi as escadas do prédio central que é um pouco curva e já no alto não sabia que rumo tomar para o lado esquerdo ou para o lado direito e decidi pegar o caminho para o departamento de Biologia a área de Zoologia onde eu era monitor. Nesse corre - corre me encontro com o Severino, meu aluno de Genética, lépido, fagueiro e tranquilo . É eu nas carreiras: – Severino porra, a polícia tá ai, entrando na escola, vai te esconder meu irmão. E ele : - Me esconder ? Ele me pega pelo ombro e diz: –Toinho , eu sou oficial do exército e aprendi a gostar de você, então vou te dar a chance de se mandar. Corri feito um louco até o Departamento de Zoologia onde me acolheu o professor Dr.Newton Banks da Rocha que ao me reconhecer me escondeu num armário no laboratório. Fiquei lá várias horas até as coias se acalmarem lá pelas nove horas da noite quando saí na mala de uma rural Willis embaixo de uma lona. Dias depois Dra. Vilma chama a servente Dona Maria para dizer que estava sentindo um cheiro muito esquisito na sala. A servente após conferir com seu olfato prodigioso, volta após alguns minutos e diz a ela: – Alguém fez xixi lá no armário. - Como é que pode dona Maria? - Xixi? É Impossível. – Não. Não é impossível não doutora, é xixi mesmo. Se juntaram as duas, e foram até o armário farejar feito cachorro de caça. Eu que preparava aula para o professor Edson de Almeida, fiquei quieto, calado, só me lembrando que quando me escondi dias atrás no armário tinha me mijado de medo que o Severino me pegasse pra me torturar. Êta comunista fraco e frouxo.