Essas músicas de carnaval

Trabalhamos no carnaval feito loucos. Foi tanta cólica que ficamos anestesiados de cansaço. Só na segunda-feira à tarde conseguimos desplugar um pouco do hospital. Como ninguém é de ferro fui para casa tomar um uisquinho com gelo de água de coco, assar uma carninha com o povo que me acompanha para fazer resenha lá no sítio Malhada da Jaguatirica. Lá eu fico sabendo de tudo todas as novidades que me são passadas pela equipe de filósofos, bêbados e malucos. Essa integração é muito importante para quem mora num distrito pequeno como Chã de Cruz em Paudalho, fica-se sabendo de tudo que acontece. Quando Pedro nasceu foi tanta visita de pessoas que não conhecíamos que ficamos admirados com nossa popularidade. Quando meus pariceiros souberam que eu já estava em casa com Nhô Moraes, foram se achegando aos poucos o primeiro a chegar foi Chinha, pedreiro de formação, quebra galho de todas as necessidades e apreciador de uma boa cachaça. O segundo foi seu Grilo atualmente fiscal da natureza (não faz nada) fica andando pelo mato vendo as coisas. Os outros dois chegaram juntos João Gata Magra excelente violeiro e boêmio e Couro Véio poeta declamador de versos e contador de estórias. Time formado, abri logo um litro de cachaça e outro de Uísque e começamos os trabalhos. Já cheguei instigando todo mundo: - Esse carnaval tá uma bosta, não tá? – Só vi umas coisinhas pela televisão, disse um deles. Seu Grilo já foi dizendo: - O senhor fica preso no hospital e quer saber das coisas. – Não vê nem televisão. Eu volto à tona: Ô Chinha eu passo dois dias fora e não tem nenhuma novidade? – Tem não, doutor, tudo tranquilo. João Gata Magra já foi dizendo para esquentar a conversa: - Eu é que tomei uma cana da molesta quando fui para o maracatu que quando cheguei em casa dona Finha quase larga d’eu. E dona Finha tem essa coragem toda, respondi. Tás feito besta. – Pior é que é mesmo. Quem é que vai querer aquela peste, parece mais o gato da zinebra e agora que não quer mais tomar banho de manhã, só se for quente feito a casa daqui do doutor. Ô João tu tens que mostrar quem manda. Risadagem geral, pois todo mundo sabe que é dona Finha quem manda. Couro veios tomou uma deu uma cusparada rica e disse: Eu fui ver a ala Ursa no domingo de manhã. Foi arretado, tinha mulé que só a gôta e muito hôme vestido de mulher. – Eu não sei que moléstia é essa aqui na Chã, pra homem sair vestido de mulher. – Eu acho isso uma fraqueza, disse o seu Grilo. Isso é um bocado de frango embutido. Né embutido, não cumpadre, é enrrustido. E como é que o senhor sabe disso, tá participando também, é? Risadagem geral e aquele silencio que tem em toda conversa após uma brincadeira e ouviu-se a voz do Nhô Moraes, que já tinha tomado umas cinco doses de uísque caubói e estava rebatendo com cerveja:- Eu não sei se o povo de antigamente era abestalhado, ou os de hoje são mais metidos a sabidos. Eu me lembro de que no carnaval antigo as músicas eram... Você se lembra da casinha pequenina onde nosso amor nasceu... ou... quanto riso oh, quanta alegria mais de mil palhaços no salão Arlequim está chorando pelo amor da Colombina...e assim vai. Pois, ontem eu fui para o Recife assistir os caboclinhos, quando me deparei com uma cena num trio elétrico um negrão cantando: Ô chapeuzinho para onde vai, diz ai menina que eu vou atrás. Eu sou o lobo mau au-au, eu sou o lobo mau auau. Vou te comer, vou te comer, vou te comer. Fiquei olhando para cima do trio, aquele negrão suado, cantando: “vou te comer” e as meninas embaixo ensandecidas me deixaram transtornado. Corri para o hospital e vim embora com o doutor. Parou de falar ficou olhando a ermo e o restante de nós ficou pensando a mesma coisa: É melhor agente tomar uma grande porque uma musiquinha dessa: ...vou te comer... vou te comer, fazer sucesso é para lascar a alma de qualquer um.