Sexto sentido... nem sempre.

Eu e Fernanda fomos visitar um Haras e ao chegarmos estava ocorrendo a cobrição de um garanhão neófito. Todo procedimento padrão com égua havia sido feito. As peias nas pernas presas, a cauda enrolada com a faixa. Ela, parada na mão do peão pelo cabresto. De repente, lá vem o garanhão, ensandecido, parecia que tinha visto o cão. Olhos arregalados, cauda levantada, narinas dilatadas e o pior, já desembaiado. Seu tratador correndo na frente levou-o diretamente para onde estava a égua. Foi um “Deus nos acuda”. Puxa para lá, puxa para cá. Quando alguém grita atrás de mim: – Coloca o pênis dele no lugar certo. Até que ele finalmente ele conseguiu. O nosso anfitrião se aproximou do cavalo, deu-lhe um tapinha no pescoço, pelo desempenho extraordinário, dizendo em alto e bom tom. - Esse aqui é danado mesmo, hein doutor? Eu que estava só olhando quase não percebi que era comigo. Eu fico assim meio alienado para algumas coisas, por que tenho o hábito de como juiz de cavalos, perceber rapidamente os defeitos primeiro, que as virtudes. E, me conhecendo, já entro em defesa. E ainda por cima, estava lá como convidado e não profissionalmente. Me refiz, rapidamente da pergunta sorrateira e, meio sem graça, disse-lhe: - Patrão, ele ainda tem muito a aprender. E ele: - Os animais não são como nós, são intuitivos. – É o que você pensa, retruquei:. E ele insistindo. – O doutor tem umas teorias que eu acho extraordinárias mas essa de que ele precisa aprender, é demais . – Não só ele, falei. O peão também. O que é que está errado, me fale? - Olhe, chefe, eu vim aqui como convidado e não para fazer consultoria . - É... mas, agora, vai ter que fazer. – Pois bem, em primeiro lugar, o cavalo tem que usar muito bem os cinco sentidos para realizar uma monta natural. Quando ele se aproximar da égua o peão deve parar o cavalo a certa distância e deixar que ele a veja, observe (usando a Visão). Normalmente neste processo a égua vai fazer um xixi grosso, cheio de hormônio, que será capitado pelo cavalo (usando o olfato), ele vai fazer o estímulo Flehmen , levantar os beiços , projetando–os. Neste momento, deve-se aproximar mais o cavalo da égua que poderá emitir alguns sons como relinchos curtos, assopros, que será percebido pelo garanhão (usando a audição). Aproxima-se da fêmea onde ele faz o cortejo e a dominação mordendo-a de leve e lambendo-a (usando o paladar). Se coloca em posição e faz a monta (usando o tato). Quando terminei de falar, parecia que tinha dito algo fora do comum, e ele: - O Senhor tem certeza que isso acontece? – Tenho certeza absoluta. – Com todos os animais? – Bom, eu acho que sim. Com o homem também? – É claro, respondi. Então, doutor é por isso que eu tô lascado com minha mulher. Eu, não enxergo bem, já tenho audição seletiva, não sinto cheiro, pois fumei muito e só me sobrou o paladar e o tato. Olhei para Fernanda que estava, a uma certa distância, distraída vendo uns potros, e disse-lhe baixinho: – Meu chefe se você anda pulando uma das fazes a coisa tá ruim , se estiver pulando tantas fazes tá pior ainda . – Mas rapaz, eu nunca soube que tinha esse negócio de cinco sentidos, já pensou? Disse-me quase em segredo, cochichando. Para amenizar a situação disse-lhe: - Na verdade, não são cinco para nós, são seis. – Como assim, seis? É que depois de certo tempo de casados as mulheres acham que temos que adivinhar o pensamento delas. Continuei falando baixinho, sorrindo disfarçadamente. Passamos o resto do dia normalmente, mas quando a doutora chegou no carro para irmos embora disparou: - No que eu estou pensando? Disse-me olhando-me nos olhos. - Diga no que eu estou pensando? E eu já meio abusado: - Eu sei lá no que tu tás pensando, Fernanda? Ela me fita, calada e diz: - Sexto sentido né, seu cabra safado . È só o que me falta. Você pensa que eu não ouvi você inventando essa estória para o coitado do homem. È só o que faltava na vida da gente você estudar alteração comportamental de homens de meia idade. E eu quieto pensava: Isso é um ouvido da peste.