No tempo da Jurema

Laurindo era um balzaquiano de quarenta e poucos anos, bem vividos, estruturado na vida, formado em Medicina Veterinária há vinte anos, bom emprego na Inspeção Federal, estabilidade financeira e solteirão. Como todo solteirão (e ainda por cima quarentão), era cheio de cacoetes, só fazia cocô se tivesse gibi no banheiro, só tomava o café da manhã lendo jornal, suas camisas eram religiosamente passadas na goma, meias sempre de tons escuros e era um cronômetro em questão de horário, saia de casa pontualmente às sete e meia, para a repartição onde ficava até às dezesseis horas. Fazia um lanche na hora do almoço e se fartava no jantar. Esse era o dia-a-dia do Laurindo, até que entrou na vida dele uma jovem de dezoito anos chamada Maria Amélia que foi trabalhar na casa de Laurindo a pedido de sua antiga empregada Dona Filó, avó de Maria Amélia que havia se aposentado. No dia que o Laurindo botou os olhos na menina, foi arrebatado pela beleza e sensualidade. A menina de tez morena, cabelo preto feito a noite sem luar, liso feito água de chuveiro caindo e tinha nos peitos uma graciosidade diferente, pareciam peitos de manequim de loja, duro e redondo. Laurindo solteirão com uma mulher dessa, dormindo em casa todo dia, já não queria saber de rua, es- estava caseiro feito gato capado e vivia o tempo todo puxando conversa com a menina: - Oh Maria, tua avó como está? – Tá bem doutor Laurindo. Ela agora passa o dia na tenda do candomblé, do pai Peixoto. – Ah! O pai Peixoto é amigo de tua avó há muitos anos. – Ixe, bote anos nisso. Um dia Maria estava lavando os pratos do café quando Laurindo foi se achegando por trás e viu umas marcas no braço de Maria e perguntou. – Que é isso no teu braço, Maria? – Ah, essas cicatrizes? – Sim, respondeu Laurindo. – São do meu batizado na Jurema no candomblé: – Eu tenho a muita curiosidade sobre esse negócio. Vários meses se passam. E Laurindo cada vez mais apaixonado por Maria e toda vez que ele tocava no assunto de formalizarem um noivado, Maria sempre dizia: - Só fico noiva com aprovação dos santos. Laurindo já doido e sem saída disse; - A gente vai num terreiro para resolver essa parada. E assim foi feito. No dia marcado chegaram os dois de mãos dadas no terreiro. O batuque já havia começado e as irmãs já serpentearam girando e cantando tudo de branco. Maria a mais encantadora de todas, mostrava seus dotes com um decote em “V” e Laurindo próximo só observando quando pula um negrão no meio do nada cantando incorporado e dizendo: - Olha quem chegou, agora não tem mais jeito, chegou o caboclo veio, o caboclo chupa peito. Laurindo só viu as veias levantarem a blusa e o caboclo danado no peito delas. Quando tava chegando perto de Maria, Laurindo deu um grito, dois saltos soltos e caiu de pé no meio do nada: - Olha quem chegou, chegou não tem mais jeito, é o caboclo novo que come o cú de chupa peito. O caboclo velho deu um salto saiu da roda, rapidinho. Laurindo se vendo numa situação embaraçosa, rapidamente pensou, deu uma gargalhada alta mudou a voz, e disse: - “O preto veio tá chegando, pra que o noivado seja feito, e que esse caboco possa, se deliciar nesses peitos”. E ficou de soslaio observando com a beirada dos olhos a reação de Maria Amélia.

Ao Dr. Ulisses Graça filho da Bahia