Doutor de Bicho

João Cipriano formou-se, na década de 50, em Medicina Veterinária. De família numerosa, veio para o Recife estudar com muito sacrifício. Estudava em livro emprestado virando noites, dava aulas particulares, era xepeiro e ainda fazia pequenos serviços escondido como castrações, corte de cauda, vacinações a preços módicos, e desta maneira sobrevivia como estudante.

Depois de cinco anos de batalha, chegou, finalmente, o grande dia. “Formou-se João Cipriano, o filho de Biu Belo e dona Sinhá, ele agora é o “Doutor de Bicho”! Era só o que se falava na pequena cidade de Jacú. Alguns meses após a formatura, o Dr. João Cipriano retorna a sua cidade natal, onde pretende trabalhar. Arranjaram-lhe emprego no Departamento de Produção Animal, o DPA e também na Prefeitura, o que já lhe garantia o sustento. Conforme o combinado João chegaria no trem das três da tarde de um domingo ensolarado e para surpresa de todos, desce acompanhado de uma moça alvinha e gorducha. Ele a apresenta para a sua família de um jeito bem informal:
- Gente. Essa é Neide, minha esposa. Nos casamos sexta-feira no Recife.
- Felicidades. Disseram quase em uníssono entre beijos, abraços e surpresa.

João Cipriano e Neide foram morar na estação de monta do DPA. Era aquela vidinha pacata. Todo dia a mesma coisa. Vinham buscar o Dr. João para ver uma vaca que não paria, já havia sido até rezada e não tinha jeito. O Dr. João ia lá, fazia o parto e, normalmente depois do trabalho saia para tomar umas pingas quando se esquecia do tempo. Ficava no bar conversando e bebendo com os amigos.

Num desses dias, já dezenove horas, quando estava a maior algazarra no bar de Zefinha, de repente todos silenciam e ficam olhando para o Dr. João. Ele se vira em direção a porta e vê Neide com aquela cara de bezerra desmamada e voz macia, mas cheia de veneno, bem peculiar nas mulheres possessivas:
- Vamos para casa, João. Vamos?
- Ôxente Neide. E, tu vem me buscar no bar, é?
- Besteira, João. Vamos para casa.

João, envergonhado, se despede dos amigos que ficam soltando-lhe gracinhas.
- Olha só pessoal, vocês viram o que eu ví. A mulher de João Cipriano manda nele.

Foi a conta. Daí pra frente, João não podia encostar no bar ou qualquer outro lugar para beber que Dona Neide aparecia, marcando cerrado. Vamos para casa, João...

E a turma infernizava a vida do Dr. João. Até seu pai chamou-lhe para ter uma conversa.
- João, meu filho. Que é que está acontecendo?
- De que, pai?
- O povo tá falando que onde tu pisa, tua mulher tá no teu rastro. É verdade?
- É, pai. É verdade, não sei mais o que fazer disse João meio que envergonhado por não saber como lhe dá com a situação.

Muitos anos se passaram. Os filhos cresceram. João e Neide sentiram a necessidade de voltar ao Recife para melhor educa-los.

João pediu transferência para a sede e através da ajuda de um Deputado, consegue seu pleito. Vende a casa, os animais que possuía, o pedaço de terra que herdara de um tio e comprou um apartamento no Recife. A ânsia de João de vir para a cidade grande não foi bem entendida pela família, mas, ele sabia perfeitamente o porquê.

Após a acomodação de colégio, trabalho, mudança, João se entrosou com o pessoal da repartição e toda sexta-feira cai na farra numa zona do cais do Recife. No cabaré, João já é muito conhecido pela cena que toda sexta-feira acontece. Depois de encher a cara e dançar bastante, João sobe ao primeiro andar, abre a janela e grita a todos pulmões:
- "ME ACHA, NEIDE .ME ACHA AGORA MISERA," e fica com aquele sorriso de canto de boca se sentindo o máximo.

Conto do livro Doutor Bicho e Outros Contos,1998